A Ética do trabalho voluntário, muitas das vezes nos coloca em situações onde precisamos repetidamente, dizer não. Basicamente, quando há questões envolvendo regras que outras pessoas desejam ver quebrado em benefício próprio.
É como, por exemplo, em uma distribuição de víveres, ou numa festinha para crianças onde doamos brinquedos ou dividimos os grupos para participar de brincadeiras, que sejamos cobrados a deixar “fulano” ou “sicrano” participarem ou levar consigo algo que, pelas regras estipuladas não teria direito.
O critério de justiça adequado ao momento é aplicar a regra estabelecida. Sendo necessário, que a criança freqüente as aulas matinais aos domingos para participar da festinha do dia das crianças, que essa regra seja mantida. Ou corre-se o risco de não obtermos mais a adesão nas ditas aulas domingueiras. Afinal, se um pode gozar dos brinquedos sem participar, porque os demais não?
Ou ainda: se todas as famílias têm que cumprir requisitos mínimos para ter direito a assistência de uma cesta básica com alimentos, porque alguém que não cumpriu deveria ter esse direito.
Esse cuidado deve ser tomado patrulhando nossas decisões. Algumas vezes, aquela carinha triste e olhinhos de sofrimento enganosamente nos levam a compaixão. Que nos será cobrada depois por parte dos que se sentiram lesados. Em outras oportunidades, dizemos não simplesmente por dizer. Precisamos estar seguros de não ser simplesmente um capricho de nossa parte.
Lembro-me de duas situações a respeito que usarei para exemplificar.
O rostinho angelical, manipulação.
Certa vez em uma festa dedicada ao dia das mães no Projeto onde realizamos o trabalho voluntário de evangelização, uma das crianças cuja mãe não compareceu ao evento, pediu com aqueles olhos do “gato do Shrek”, que lhe fosse entregue o mimo que caberia a sua mãe, caso tivesse ido.
Senti-me comovido e acabei entregando. Logo no minuto seguinte percebi o grave erro que havia cometido. A criança saiu toda faceira comentando com os demais, como eram bobos, pois sua mãe que nunca havia ido até a escola, acabara de ganhar um presente. Aquilo acabou me gerando ao menos duas semanas de explicações aos que logicamente, sentiram-se prejudicados por meu ato.
O capricho ditando regras.
Outro caso que gostaria de trazer aos leitores envolve o capricho na tomada de decisão. Desde sempre, estipulamos que três faltas, mesmo que não consecutiva em um mesmo semestre da evangelização, implica na perda da vaga por parte da criança, que deverá se candidatar a nova vaga no semestre seguinte.
As primeiras crianças que cometeram as três faltas foram comunicadas que deveriam pleitear nova vaga no semestre seguinte.
Percebemos com o passar do tempo que algumas crianças faltavam dentro de um padrão quase repetitivo: primeiro domingo do mês, terceiro domingo do mês, a cada dois domingos.
Ao procurarmos saber os motivos, descobrimos que mais que sessenta por cento delas tinham pai, mãe ou ambos, incluídos no sistema carcerário estadual. E que as faltas, coincidiam com os dias de visitas.
Tivemos que rever nossa posição, uma vez que o esforço daquelas crianças para estar presente nos domingos que compareciam, provavelmente era maior do que o dos demais. Talvez até, mais que o nosso.
O trabalho nos cobra coerência a todo o momento. Contudo, precisamos sempre nos amparar no bom senso.
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